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04 julho 2016

Dica do dia: Internations - o site do expatriado

Logo do Internations

Quando voltei da primeira temporada londrina, rolou aquela depressão pós-Europa maravilhosa (#quemnunca?). E aí, um amigo do Facebook deu like numa página, achei interessante e fui checar: era o Internations, esse site lindo.

Tenho um perfil lá desde Janeiro/2014 e desde então vou a todos os eventos, participo dos grupos, do fórum, treino o inglês e conheço pessoas. Deixe-me explicar: O slogan do Internations é "Making life easier for expats" e é bem isso mesmo. Ele reúne num lugar só grupos divididos por cidades e é perfeito para quem é um expatriado mundo afora.

Foto sem-vergonha do nosso 4th of July: Igor é croata, Mari e eu, brasileiras

Suponhamos que você é um neo-zelandês se mudando para Goiânia (normalmente porque você se casou com uma brasileira, por razões óbvias). Você muda sua cidade para "Goiânia" e pode acessar o fórum da cidade, que se divide em tópicos como Town Talk, Expat Q&A, Jobs, Housing, Marketplace. Ou seja, tudo organizadinho, pra você já chegar aqui sabendo o caminho das pedras: onde procurar casa, onde levar seus filhos pra escola, onde comprar aquele tempero que você ama, onde conseguir um emprego na sua área... Tudo! E se não tiver lá, é só perguntar, que a galera responde rapidão!

Chegando em Goiânia, você, o nosso amigo neo-zelandês, vai poder participar dos eventos que acontecem por aqui (com a frequência de 1x ao mês, porque somos um grupo pequeno, de umas 80 pessoas), conhecer pessoas, receber indicações, fazer networking. Já vi muita coisa maneira acontecendo nos eventos, tipo galera se organizando pra um ensinar português enquanto o outro ensina inglês e tal. E você ainda pode participar de eventos paralelos, relacionados a um determinado grupo da cidade interessado em passeios outdoor ou artes, dentre alguns dos exemplos.

Tamy e eu no evento de St. Patrick's Day! Nos conhecemos no Internations e vou vê-la casar na Bélgica!

E eu, Marla, born and raised aqui em Goiânia. Por que diabos me inscreveria nisso? Bom, pelos mesmos motivos. Pratico meu inglês, estou sempre em contato com gente do mundo todo, networking, gente que indica gente pra fazer tradução, pra fazer freelas, pra tudo! Sábado passado nos reunimos em uma chácara pra comemorar o 4th of July e foi muito divertido! Fiz uma grande amiga no Internations e em agosto vou pra Bélgica vê-la casar S2

E pra não dizer que só meu Internations Goiânia é legal, na minha última temporada em Londres (2014/2015), mudei pra cidade "London" e fui numa pá de eventos por lá, conheci um monte de gente bacana e acabei indo em um bocado de lugares novos, que eu nunca teria ido sem indicação de alguém.

Nosso embaixador em Goiânia, o americano Stephen, sempre nos dá essa etiqueta com o nome, pra facilitar

Mas Marla, fiz meu perfil e descobri que não tem um Internations na minha cidade! E agora, ó, Deus? Calma, calma, não priemos cânico! Basta você sugerir aos colaboradores e dar início a um grupo na sua cidade! Daí você vira embaixador, pode organizar os eventos (é coisa simples, tipo ligar num restaurante/bar pra marcar uma turma grande pra consumir por lá) e fazer história!

Eu adoro o Internations! Fico esperando pra ter um evento novo e reunir o pessoal. Corre lá fazer seu perfil e se precisar de uma mão, cola aqui nos comentários, que é sucesso! E se, por acaso, o que você precisa é apenas de umas dicas viajantes, talvez o meu manual de Viajante mão-de-vaca pode ser o que você estava precisando!

01 maio 2016

Deixa as puta*!

Foto de Paul Keller (Flickr)

 *A concordância é essa mesma, pois: goianês. Aceita que dói menos.

Como cês devem saber, sou menina criada em Goiânia, esse lugar que pode ser machista pra caralho, então passei uma vida ouvindo a galera falando mal das puta. Eu mesma fui uma delas e ainda hoje tento trocar o palavrão "filho da puta", pois já sabemos que nem tudo é culpa da mulher, minha gente. O cara é um escroto, mas sua mãe pode não ser, daí nada a ver xingar alguém de filho da puta, haja vista que se está xingando a pobre mãe e não o cara.

Calma, voltei. Foco.

As puta.

Acho normal o trabalho das puta. Um trabalho como outro qualquer. Elas oferecem um serviço, os caras pagam e pronto. Uma modalidade de negócio foi concluída.


Foto de Blemished Paradise (Flickr)

Se você pode usar os serviços de uma massagista, de uma manicure, de uma depiladora etc etc etc, por que outras pessoas não podem usar os serviços da puta? Só porque tem sexo no meio? Mas eu não entendo esses problemas que cês têm com sexo. "Ai, que degradante". Ai, filha. Ninguém tá pedindo pra você se prostituir. Degradante é trabalho escravo. E tenho certeza que você tem muito mais compaixão por esse povo (cutuquei sua lógica?). "Ah, mas pelo menos eles estão fazendo um trabalho honesto". Pra mim, desonesto é roubar e matar. Ou fazer algo em que não estejam todas as partes envolvidas de acordo. Exemplo: estupro. Tá me acompanhando?

Alguém falou que é porque as puta são responsáveis por destruir casamentos da família tradicional brasileira. Sério. Sério mesmo. Acho MUITO engraçado que as minas nem por um instante pensem que a culpa é do cara, que foi lá trair a mulher, pagando por sexo (ou não pagando, enfim). As minas tão sempre culpando outras minas. A culpa nunca é dos caras. Que fantástica essa linha de raciocínio (#sqn).

Foto de Devon Buchanan (Flickr)

Dia desses falei "tenho nada contra as puta, inclusive seria uma, sem problemas, se me sobrasse apenas essa opção". Fez-se o silêncio sepulcral, como se eu tivesse dito que mataria alguém se necessário fosse. Gente. É só um serviço.

Poderia aqui me alongar e falar sobre a falta de legislação pras puta, mas vivemos num país onde não se pode nem abortar quando se é estuprada. Então, né? Vou parar por aqui mesmo.

Deixa as puta trabalhar. Deixa as puta.

10 junho 2015

Até quando vai ser normal?

Foto: reprodução

- Nossa, esse celular tira umas fotos TOP!
- É um iPhone! Já que você está querendo trocar de telefone, por que não compra um desses?
- Tá louca? E se me roubam?

E aí minha colega riu do meu desespero e eu fiquei pensando no porquê de ela ter rido, o que em seguida me levou para novos questionamentos: até quando vou ficar com medo de comprar coisas por medo de elas serem roubadas? Até quando vou achar normal ter medo de ter coisas porque elas podem ser roubadas? Até quando vou me obrigar a viver num lugar onde é normal ter suas coisas roubadas?

Quando você passa a sua vida inteira vivendo uma realidade, dificilmente vai se importar em distanciar-se dela para analisá-la. Por outro lado, quando você conhece qualquer outra coisa que seja melhor que essa realidade, tudo passa a ser questionável. O fato de eu ser uma mulher agrava muito mais a quantia de questionamentos.

"Ai, Marla, vai me dizer que fora do Brasil não tem violência, roubo, estupro?". Claro que tem. Em quantidade infinitamente menor, mas é claro que tem.

Portugal foi minha primeira viagem internacional, morei em Coimbra por quase um ano enquanto fazia faculdade. Lembro-me claramente de que sempre avisavam às mocinhas que não era bom andarem sozinhas no Parque da Sereia, bem na praça principal, porque uma mulher havia sido estuprada lá uma vez. Então eu só tinha duas coisas a evitar: o Parque da Sereia e as ciganas (eu literalmente corri de uma morro acima - história para outro post). Teve uma vez que saímos tarde do bar e já não havia mais ônibus. Pensamos em pegar um táxi, mas era uma caminhada de meia hora pra chegar em casa, não valia a pena. Tínhamos medo de sermos assaltados no caminho. Todos os portugueses que estavam na nossa mesa riram. De gargalhar. 

O perigosíssimo Parque da Sereia, em Coimbra - PT

Depois fui morar em Londres por alguns meses e minha host family caçoou de mim quando contei como é nosso esquema de segurança no Brasil. Esse já rendeu um post e tá aqui. Depois de ser tão zoada por europeus, resolvi desencanar e voltava pra minha casa no leste londrino (considerado uma região suuuuuuper perigosa, ó meu deus) tarde da madrugada nos tão temidos ônibus noturnos. Nunca me aconteceu nada. Nunca me senti ameaçada, com medo - de ser assaltada, estuprada, agredida. Nunca. Você sabe precisar quando foi a última vez em que não sentiu medo?

No primeiro dia da minha segunda temporada em Londres, dormi profundamente em um parque no meio da cidade. Não havia policiais fazendo ronda, umas poucas pessoas almoçavam por ali. Na minha mochila estavam todos meus aparelhos eletrônicos, incluindo meu notebook. Acordei num rompante, batendo a mão à procura da mochila e ela estava ali - do mesmo jeito que eu a havia deixado. Eu dei bobeira? Sim. Mas vamos aqui fazer uma análise. Se eu tivesse pegado no sono assim no Parque Vaca Brava, será que minha mochila ainda estaria lá? Pior: será que eu precisaria ter dormido para ficar sem a minha mochila?

Russell Square, essa pracinha perigosíssima onde peguei no sono em Londres

No último feriado passei um dia na Cidade de Goiás. Em dado momento estendi uma toalha no chão e fiquei lendo meu livro sossegadamente. De volta a Goiânia perguntei-me se eu teria coragem de fazer o mesmo em um parque qualquer daqui. Qualquer um, you name it. A resposta é não. Eu já corro no parque ouvindo música no celular e pensando se estou atenta o suficiente para não ser assaltada em algum canto sem iluminação. Se eu devo passar embaixo da sebe mesmo à noite, sabendo que alguém pode me empurrar para o meio do matagal e me estuprar. E eu te afirmo: não sou a única a pilhar com essas coisas. Mas a pergunta mais importante é: até quando vamos achar normal ter que tomar tanto cuidado pra viver?

Até quando vai ser normal um cara matar a namorada a tiros no meio da praça de alimentação de um shopping? Até quando vai ser normal um cara esfaquear a namorada porque ela terminou com ele? Até quando vai ser normal uma garota morrer depois de ter sido vítima de um estupro coletivo? Até quando?

E eu te pergunto: se você tivesse a oportunidade de morar em outro país continuaria escolhendo o Brasil?

27 abril 2015

O causo da cidade que anda pra trás


Tô na vibe de caminhar por aí nas pistas de Goiânia pra mexer um pouco o corpo. Tentando criar gosto pela coisa, sabe como é. Daí descobri que não pode caminhar a qualquer hora. Tem que ser de manhã ou à noite. Mas não qualquer hora da noite, tem que ser no máximo até 8 da noite ou então não vai ter ninguém mais na pista e você vai se ver sozinha num lugar ermo e escuro e vai ser perigoso. Chato, né?

Dia desses saí da yoga às 20h40 e achei que poderia ir dar um rolé no Areião, mas tinha mais ou menos umas 4 almas vagando pela pista, achei meio perigoso e fui-me embora sem o caminhar daquele dia. Comentei com uma amiga que mora em São Paulo e que não perdeu a oportunidade: se fosse aqui, tinha gente saindo pra caminhar às 11 da noite. Pois é. Pois é. Mas aqui em Goiânia tem hora pra caminhar, é claro. E, pelo que vi, tem sentido obrigatório também. Explico.

Perto da minha casa tem uma dessas praças que virou pista de caminhada / campo de futebol / parquinho pra criançada / lugar de levar o cachorro pra passear. Um belo dia fui lá e, enquanto caminhava, reparei que todo mundo seguia num único sentido, eu era a única a ver as pessoas de frente. Achei que fosse uma coincidência e segui meu caminho. Mas obviamente não demorou muito até que alguém viesse me bater a real.

O velhinho nem caminhando estava. Com suas havaianas no pé, não fez cerimônia pra interromper minha passada e dizer "Filha, quando vier caminhar aqui você deve seguir pelo sentido anti-horário, o contrário do que você está fazendo agora." Ora essa, como assim? "Por quê?", perguntei sem pressa. Ao que ele respondeu:

- Porque aqui a gente faz assim.

Mandei um "então tá", resmunguei um "mas eu não sou provinciana" e segui meu caminho no sentido horário mesmo pois: não sou obrigada. Goiânia, essa cidade que tem hora pra caminhar e sentido obrigatório - o de andar pra trás.
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